Uma menina sem a visão do olho direito, começa a ver coisas estranhas.
Não
vejo nada.
Falava a menina para o
medico. Seu olho direito ainda estava inchado. A visão escureceu e repentinamente
tudo se tornou trevas. Perdeu metade do olhar. Havia tristeza e preocupação. Diagnósticos
não constatavam nada. Agora só existem “meia-coisas”.
Finalmente em casa. Mamãe e papai discutem. Só quero
brincar. As roupas da boneca são bonitas. Gosto do vestido de bolinhas. Um
delas não tem um olho, quebrou quando mamãe tentou limpar. Gosto mais dessa.
Desenhos. Adoro TV.
Já é hora da janta. Legumes. Não gosto de legumes,
prefiro refrigerante. Papai fica na sala. Ele não janta. Fala-me boa noite e me
dá um beijo. Estou com sono. Melhor dormir.
Estou escutando vozes. Algumas falam coisas que não
entendo. Estou com medo. Vou à cama da mamãe. Ela diz que tenho que dormir
sozinha. Vejo TV demais. Papai não está lá. Ela me coloca novamente na cama.
Pergunto sobre ele. Diz que teve que viajar.
Só existe meio amor agora.
Não consigo dormir. Meu olho inchado começa a coçar.
Coloco os dedos. Escuto alguém me chamar. Não vejo ninguém. O quarto está
escuro. Porta fechada. A boneca sem o olho ainda está lá.
Tudo fica vermelho.
Agora eu consigo ver. Mas meu olho ainda está inchado. Ele
é vermelho agora, igual o vestido da mamãe. Tem alguém lá no chão. Levanto. Não
tem mais. Fico assustada. Abro a porta. Quero a mamãe.
Ela está na sala agora. O papai também. Os dois estão
falando algumas coisas. Parecem aquelas vozes. Não me notam, mesmo ao lado
deles. Não parecem eles. O papai está brabo, a mamãe grita. Ela dá um tapa na
cara dele. Ele tem uma faca.
Sangue.Muito sangue.
Fico assustada. Começo a chorar e gritar.
Mamãe está me abraçando. A luz está ligada. Tudo sumiu.
Não consigo mais enxergar com meu olho. Eu abraço ela. Enxuga minhas lagrimas.
Ela me faz perguntas, eu tento explicar. Mamãe não entende. Estou tranquila.
Hoje eu posso dormir com ela. Não existem mais vozes.
Alguém bate a porta.
É o papai.

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