domingo, 1 de fevereiro de 2015








Um homem senta em sua cadeira favorita e admira sua arte.

É uma cadeira muito bonita.

As pontas eram feitas de madeira maciça. Eram trabalhadas em pequenos detalhes, com pedras e diamantes, adoradas em listras de ouro. Divina. Adorável. Um verdadeiro trono, á sua majestade. Mas a verdadeira arte está muito, muito além disso.

O corpo do móvel era acoplado com o corpo de uma mulher, onde suas pernas e braços foram amputados e encaixados em próteses de madeiras. Formando um verdadeiro móvel humano. Ela ainda respirava. Tentava se mexer. Seus dentes foram todos arrancados, e sua boca amordaçada. Permanecia imóvel. Estava praticamente morta. Só esperava morrer.

Esplêndido. Sinto sua respiração. A doce batida do seu coração faz uma sinfonia magnífica, solista com minha decoração. Arte!

Inclinava seu dorso. Bebia o vinho em taças de cristais importadas da Inglaterra. Era de 1785. O ultimo da coleção, pertenceu ao duque da Normandia.

Colocou levemente os cristais, sobre uma mesa igualmente luxuosa, adora em suas pedras preciosas e um dorso humano. Onde uma mulher inclinada fazia o papel de apoio. Seus pés e mãos foram amputados e substituídos por pontas de madeira trabalhadas em metais, no mais requintado talhado.

A mulher respirava com extrema dificuldade, embora o movimento não prejudicasse o equilíbrio da mesa, pois suas costas eram apoiadas por um mastro de metal que impediam que sua coluna fosse quebrada. Seus olhos chamavam pela morte e o fim do sofrimento. Queria gritar, mas a gigante bola de metal pressa em sua boca impedia de tal fôlego. Estava maquiada como uma rainha na corte.

O som do violino entoava pela sala, onde a sinfonia de Beethoven se misturava com os abajures humanos, onde a cabeça fora substituída por lamparinas incandescentes e corpo inteiro usado como um apoio.

Sofás, mesas, cadeiras, todos moveis vivos espalhados pela sala. Tentavam gritar e se libertar do gigantesco martírio. Mas os dentes eram sempre retirados, articulações cortadas, e às vezes a coluna deslocada impedindo qualquer movimento. Manter vivo e imóvel eram as prioridades que ó excelentíssimo Dr. Claude, talhava seus moveis.

Caminhou lentamente até o fundo da sala e passou por uma porta de metal encravada com o brasão de sua família. Quadros. Esculturas. Uma verdadeira realeza.

Pegou suas ferramentas. Aproximou-se de uma mesa. Olhou profundamente para a mulher deitada e amarrada por cordas, que se debatia desesperadamente, enquanto cuspia o sangue e os pedaços de dentes quebrados em sua boca. 

Escutou os violinos.Sorriu.

É arte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário