Um homem senta em sua cadeira favorita e admira sua arte.
É
uma cadeira muito bonita.
As pontas eram feitas de
madeira maciça. Eram trabalhadas em pequenos detalhes, com pedras e diamantes, adoradas
em listras de ouro. Divina. Adorável. Um verdadeiro trono, á sua majestade. Mas
a verdadeira arte está muito, muito além disso.
O corpo do móvel era
acoplado com o corpo de uma mulher, onde suas pernas e braços foram amputados e
encaixados em próteses de madeiras. Formando um verdadeiro móvel humano. Ela
ainda respirava. Tentava se mexer. Seus dentes foram todos arrancados, e sua
boca amordaçada. Permanecia imóvel. Estava praticamente morta. Só esperava
morrer.
Esplêndido. Sinto sua respiração.
A doce batida do seu coração faz uma sinfonia magnífica, solista com minha
decoração. Arte!
Inclinava seu dorso. Bebia o
vinho em taças de cristais importadas da Inglaterra. Era de 1785. O ultimo da
coleção, pertenceu ao duque da Normandia.
Colocou levemente os
cristais, sobre uma mesa igualmente luxuosa, adora em suas pedras preciosas e
um dorso humano. Onde uma mulher inclinada fazia o papel de apoio. Seus pés e
mãos foram amputados e substituídos por pontas de madeira trabalhadas em
metais, no mais requintado talhado.
A mulher respirava com
extrema dificuldade, embora o movimento não prejudicasse o equilíbrio da mesa, pois
suas costas eram apoiadas por um mastro de metal que impediam que sua coluna
fosse quebrada. Seus olhos chamavam pela morte e o fim do sofrimento. Queria
gritar, mas a gigante bola de metal pressa em sua boca impedia de tal fôlego. Estava
maquiada como uma rainha na corte.
O som do violino entoava
pela sala, onde a sinfonia de Beethoven se misturava com os abajures humanos,
onde a cabeça fora substituída por lamparinas incandescentes e corpo inteiro usado
como um apoio.
Sofás, mesas, cadeiras,
todos moveis vivos espalhados pela sala. Tentavam gritar e se libertar do gigantesco
martírio. Mas os dentes eram sempre retirados, articulações cortadas, e às
vezes a coluna deslocada impedindo qualquer movimento. Manter vivo e imóvel
eram as prioridades que ó excelentíssimo Dr. Claude, talhava seus moveis.
Caminhou lentamente até o
fundo da sala e passou por uma porta de metal encravada com o brasão de sua família.
Quadros. Esculturas. Uma verdadeira realeza.
Pegou suas ferramentas. Aproximou-se
de uma mesa. Olhou profundamente para a mulher deitada e amarrada por cordas,
que se debatia desesperadamente, enquanto cuspia o sangue e os pedaços de
dentes quebrados em sua boca.
Escutou os violinos.Sorriu.
É
arte.

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